🇵🇹 O HOMEM QUE ENSINOU VÁRIAS GERAÇÕES A CONDUZIR


Morreu incógnito o homem que mais livros vendeu em Portugal
Milhões de portugueses leram centenas de vezes o seu nome. 


Tornou-se uma marca e enriqueceu. 


Em dezembro de 2023 morreu e não houve uma notícia sobre o assunto. Catatau era o seu nome.

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Não tenho uma resposta que satisfaça os muitos que quiseram saber.

É que nos últimos trinta anos, com mais ou menos espanto, perguntaram-me:

“Não tens carta de condução?”

Alguns capricharam no modo de perguntar:

– “Não tens carta de condução???”

E houve também os que querendo rir fizeram-se de sonsos ou anteciparam a resposta:

– “Não conduzes? Morando em Lisboa não faz muito sentido ter carta”.



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Respondi sempre coisas diferentes, mas dentro da explicação mantive a punchline.

– “Nem o João Catatau me convenceu a tirar a carta”.

O Catatau era uma referência entre os que tiveram de estudar o código de estrada. Todos os livros que formaram os portugueses que têm agora entre 40 e 80 anos, foram escritos por esta personagem tornada marca.

E como quase todos os que se transformam numa marca deixou de ser visto como uma pessoa. Ninguém terá pensado duas vezes sobre João Catatau, mas há milhões de portugueses que sabem que existiu.

Como não conhecer o português que vendeu mais livros do que Saramago, António Lobo Antunes e José Rodrigues dos Santos juntos?

João Catatau morreu. E não houve uma notícia.

Foi como se não tivesse acontecido ou como se ele nunca tivesse existido.

Ao pesquisar dei por um artista da bola e por um homicida, os dois brasileiros e os dois Catatau, mas do João nem uma referência.

Nem um apontamento acerca da morte do engenheiro agrónomo que nunca chegou a sê-lo. O homem que enriqueceu com o código da estrada, que disso fez profissão e depois arte.
O homem que ensinou meio mundo a conduzir, que fundou uma empresa que dominou o mercado e que nunca deixou os seus créditos em searas alheias.

Quando um dia lhe perguntaram, certamente que para gozar o prato, se tinha carta de pesados, respondeu:

– “De pesados, de ligeiros, de autocarros, de tratores e de motociclos”.

E tinha mesmo.



João Catatau. O best-seller do código da estrada que ensinou meio mundo a conduzir

Por Maria Ramos Silva,


Meia dúzia de títulos chegaram para vender milhões de livros ao longo de 30 anos de “A Carta”

Certos apelidos sobrevivem à via rápida do esquecimento, mesmo que respondam do outro lado da linha em figurino bem diferente do de há três décadas. Os 30 graus brasileiros que escarnecem do frio português pedem calções e chinelos no pé. As quatro rodas não são chamadas para Cumbuco, paraíso do kytesurf, a meia hora de distância de Fortaleza, onde em 2007 investiu num condomínio turístico e por lá ficou a gozar a reforma.

“Enquanto os outros eram Júlio Reis e Alexandre Campos, ou Alves Costa, eu era o Catatau. Tenho um nome invulgar, não é?” É mesmo. Não há volta a dar. João Catatau, o mais popular compilador da teoria das leis da estrada, ainda hoje é lembrado por muito bom aprendiz. “Guia Prático do Bom Condutor”, “Teoria do Código”, “Testes de Código”, “Testes de Mecânica”, “Novo Manual de Mecânica”. Poucos mais títulos foram precisos para vender milhões de manuais ao longo de três dezenas de anos no mundo da condução, onde se estreou a aprovar e reprovar alunos. “Naquela altura, os exames eram feitos por militares e estudantes universitários acima do terceiro ano. Estava no quarto quando um amigo me falou disso e inscrevi-me para fazer exames de condução.”

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Até meados de 90 assistiu de camarote ao boom das escolas de condução. A afluência era tal que as listas de espera atingiam um ano. Homens, mulheres, idosos, emigrantes. Os livros saíam como pães quentes. Muitos seguiam pelo correio. Para a Madeira, por exemplo, viajavam cerca de 100 exemplares por dia a partir do Continente. A partir dos anos 80, a empresa começou a ter vendedores que percorriam o país em carrinhas. “Esses vendedores foram conhecendo os filhos dos donos das escolas de condução, que estão hoje à frente das casas. Quem está na berra a vender publicações são ex-empregados nossos.”

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Corriam os tempos em que um dístico amarelo na traseira do veículo denunciava os condutores com menos de um ano de carta. O pobre do examinando ter-se--á enganado na aula. Tarde de mais. João nunca averiguou conhecimentos de biologia. “Perguntei a um aluno como se assinalava isso e ele respondeu que era com um testículo amarelo na parte traseira do veículo.” Um lapso linguístico ainda se tolerava, mas nem o mais santo dos observadores deixaria passar em branco um casamento nefasto entre teoria e prática.

O anafado agente de uma funerária bem precisava de garantir o “sim” no final dos testes, então realizados no interior do carro, antes da fase da condução, marcada para a Praça do Campo Pequeno. O cangalheiro, que já falhara em demasia na prova oral, enterrou-se a dobrar quando tentou pôr o carro a trabalhar mantendo os pés no chão, alheios por completo da função da embraiagem. “Ia-me rebentando com a caixa de velocidades. Claro que chumbou.” Nem uma nota por debaixo da mesa o salvaria da forca, mas quem sabe se, se o nome do digníssimo educando soasse mais alto, o desfecho não teria sido outro.
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Em 2004, as edições A Carta fechavam portas de vez, mas já antes abandonara os testes práticos. Em 2006 seguiu para o Brasil, onde continua a dar descanso aos 66 anos. “Tínhamos de ter vínculo com o Estado para continuarmos a ser examinadores e nunca quis seguir essa via. Segundo ouço, as escolas de condução estão numa crise terrível, mas na altura era um negócio da China.”

(jornal i).
Lisboa SOS à(s) sábado, janeiro 14, 2012

A entrevista pode ser consultada na íntegra, no seguinte link👇👇



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