🇪🇺 ARTIGO OPINIÃO "TRUMP * UNIÃO EUROPEIA, O CISNE NEGRO"

Trump vs. UE: um “Cisne Negro” ou um desafio anunciado?
A ascensão da nova administração Trump coloca a União Europeia (UE) numa encruzilhada geopolítica e económica [1].
As recentes decisões do governo norte-americano têm abalado as relações comerciais e políticas internacionais, pondo em causa acordos previamente estabelecidos e desafiando a estabilidade global [2].
Além disso, estas medidas ameaçam o funcionamento do comércio internacional, especialmente num contexto de elevada interdependência devido às cadeias de abastecimento globais.
Os impactos dessas ações são imprevisíveis, podendo afetar diretamente os consumidores e comprometer a estabilidade dos mercados internacionais. Neste contexto, é pertinente questionar se as ações de Trump podem ser enquadradas na teoria do “Cisne Negro“, de Nassim Nicholas Taleb [3].
A teoria do “Cisne Negro” descreve eventos altamente improváveis, mas de grande impacto, que apenas são racionalizados após a sua ocorrência [4].
No entanto, se analisarmos a trajetória política e comercial de Trump, torna-se evidente que as suas ações não são inesperadas, mas sim uma progressão da sua doutrina nacionalista e transacional. A sua abordagem rege-se pela lógica de que tudo é um negócio, onde os compromissos históricos e alianças estratégicas podem ser descartados se não servirem os seus interesses imediatos, e recorde-se que estamos a falar de alguém que se legitima em 77 milhões de votantes americanos de um total de 335 milhões de americanos e que agora quer impor a sua retórica aos restantes 7 725 milhões de habitantes mundiais [5,6].
O desprezo pelos organismos multilaterais, a retórica de descredibilização da NATO e a tentativa de inverter narrativas sobre conflitos internacionais são coerentes com a sua visão de uma América isolacionista e dominadora. Assim, mais do que um “Cisne Negro”, a atual conjuntura representa um teste crucial à resiliência e autonomia da União Europeia. Se alguma vez houve dúvida de que Trump representava um “Cisne Negro”, essa dúvida só poderia ter existido na sua primeira administração [7].
Agora, é claro que a sua agenda se mantém inalterada e a UE já deveria ter desenvolvido mecanismos de defesa contra esta realidade.
A necessidade de reforço da autonomia europeia
Os números da economia global vincam a necessidade de a UE reforçar a sua independência estratégica. A UE, com um PIB de 18 590 bilhões de dólares [8], é um dos blocos económicos mais influentes do mundo. Representa 17,51% da economia global, à frente da China (16,76%) e apenas atrás dos EUA (26,11%).

No entanto, ainda demonstra vulnerabilidades, sobretudo na ausência de uma política económica e industrial verdadeiramente integrada. A Federação Russa, com um PIB de 2 020 bilhões de dólares (1,90% da economia mundial) e um volume de exportações de 492,63 bilhões de dólares, embora seja uma potência energética, mantém-se distante da capacidade económica dos restantes blocos, funcionando mais como um agente de desestabilização do sistema democrático e económico global [9].
Adicionalmente, a dimensão demográfica da UE (448,8 milhões de habitantes) confere-lhe um peso significativo na cena internacional [10]. No entanto, sem uma política externa coesa e uma estrutura de defesa autónoma, a dependência dos EUA permanece um fator crítico. Esta dependência torna-se ainda mais evidente quando comparamos os gastos militares previstos para 2025:

A análise comparativa dos gastos militares revela uma disparidade preocupante: a UE, apesar de sua relevância económica global, aloca proporcionalmente menos recursos à defesa do que os EUA, China (cenário B) e, notavelmente, menos do que a Rússia em termos de percentagem do PIB [11, 12, 13, 14]. Diante do enfraquecimento da NATO, exacerbado pelas políticas da administração Trump, torna-se imperativo que a UE adote medidas concretas para assegurar a sua segurança e estabilidade. A realidade é que, sob a atual administração, a NATO enfraqueceu a sua credibilidade como garante da segurança europeia – não se pode mais contar com o apoio incondicional dos Estados Unidos. A postura da administração Trump sugere que a UE é vista mais como um adversário a ser explorado, e não como um parceiro a ser defendido [15].
A reconfiguração do panorama geopolítico global, caracterizada pela crescente imprevisibilidade da administração Trump e pela fragilidade da aliança transatlântica, impõe à União Europeia a necessidade de reavaliar sua estratégia de segurança e defesa [16].
Nesse contexto, a reindustrialização do setor militar emerge não apenas como uma necessidade premente, mas também como uma oportunidade estratégica para impulsionar o desenvolvimento tecnológico e a inovação em todo o bloco [17].
A iniciativa da Comissão Europeia de investir 1,5 bilhões de euros no fortalecimento da indústria de defesa representa um primeiro passo importante nessa direção. No entanto, para alcançar uma autonomia estratégica genuína, é fundamental que a UE mobilize investimentos ainda mais robustos e coordene esforços em escala continental [18].
A criação de uma “economia de guerra”, nos termos propostos pela Comissão, exigirá um compromisso financeiro significativo e uma visão estratégica de longo prazo, com o objetivo de consolidar a capacidade da UE de responder de forma eficaz e autónoma aos desafios de segurança do século XXI [19].
A necessidade de coordenação e unidade na União Europeia
A ausência de uma coordenação unificada entre os 27 Estados-Membros configura uma das maiores vulnerabilidades da União Europeia, permitindo que determinados atores exerçam uma influência desestabilizadora que compromete a coesão do bloco. Tal cenário não apenas mina a eficácia da União enquanto entidade política e económica, mas também coloca em risco os princípios democráticos que historicamente fundamentaram o projeto europeu [20].
A situação da Hungria emerge como um exemplo paradigmático desta problemática, ilustrando como a erosão do Estado de direito e o afastamento dos valores democráticos por parte de um Estado-Membro podem representar uma ameaça existencial para a integridade da UE.
Diante deste quadro, torna-se imperativo que a União Europeia promova uma reflexão profunda sobre os seus mecanismos de governança e os instrumentos disponíveis para salvaguardar os seus valores fundamentais.
O desafio que se apresenta à União Europeia transcende a mera dimensão política ou económica, assumindo contornos eminentemente existenciais. A preservação da democracia europeia exige uma ação firme e concertada por parte de todos os Estados-Membros, bem como uma renovada ênfase na promoção dos valores da liberdade, da igualdade e do Estado de direito.
A complacência face à erosão democrática interna representa um risco inaceitável, podendo comprometer não apenas a eficácia da UE enquanto ator global, mas também sua legitimidade como bastião da democracia e dos direitos humanos no século XXI.
O papel da União Europeia no Comércio Mundial
A dinâmica atual do comércio internacional exige que a União Europeia esteja atenta à sua estratégia e à sua abordagem, especialmente face aos desafios colocados por potências globais como os Estados Unidos e a China. Embora a China continue a consolidar a sua posição como o principal motor da indústria mundial, com exportações de 3,59 biliões de euros e importações de 2,69 biliões de euros, e os Estados Unidos apresentem um perfil marcado por um défice comercial significativo (importações de 3,34 biliões de euros e exportações de 2,53 biliões de euros), a União Europeia, em 2023, destacou-se como o maior mercado mundial de exportação e importação de bens e serviços, com exportações de 4,00 biliões de euros e importações de 3,61 biliões de euros, registando um excedente comercial de 389 mil milhões de euros [21].

A atual administração americana tem procurado inverter a sua balança comercial através de decretos e ações geopolíticas, como a tentativa de desvalorizar o papel da União Europeia no panorama global. Esta postura enfraquece a coesão das potências ocidentais e provoca disrupções no comércio internacional. Ao fazer isto, Trump coloca a União Europeia num dilema estratégico, que exige uma resposta eficaz não só nas relações comerciais, mas também na segurança e estabilidade global.
…a grande questão que se coloca é se a UE conseguirá superar esta fase de incerteza e transformar a crise numa oportunidade. A resposta julgo passar-se por um aprofundamento da integração europeia, uma maior autonomia estratégica e um investimento reforçado na sua capacidade militar e industrial.
Neste contexto, a União Europeia deve procurar reforçar a sua capacidade de negociação e adaptação. É crucial que a UE intensifique as suas relações com países como o México, o Canadá e o Reino Unido, que têm sido vítimas da política protecionista de Trump. Ao unir esforços e estabelecer novas parcerias, a União Europeia pode aproveitar essas oportunidades para fortalecer as suas relações comerciais e estratégicas, criando um eixo de estabilidade e prosperidade.
Para consolidar o seu papel no cenário global, a União Europeia deve também intensificar os seus esforços na conclusão de acordos comerciais ambiciosos e mutuamente benéficos com parceiros estratégicos, como o Mercosul e a Índia. A diversificação das relações comerciais e a promoção de um sistema multilateral robusto e baseado em regras claras são passos fundamentais para que a União Europeia proteja os seus interesses comerciais e, ao mesmo tempo, afirme a sua posição como um polo central na economia mundial [22, 23, 24].
As mudanças geopolíticas em curso têm implicações significativas para o setor de transportes e logística na Europa. A instabilidade política global afeta diretamente as operações logísticas, gerando disrupções nas cadeias de abastecimento, elevando os custos e colocando uma pressão económica crescente sobre o setor. Ao mesmo tempo, o setor enfrenta desafios ambientais urgentes, que exigem investimentos substanciais em práticas sustentáveis, mesmo em um contexto de restrições económicas [25].
Não obstante, esta conjuntura complexa também gera oportunidades de inovação e de desenvolvimento de soluções tecnológicas e operacionais inovadoras no setor. A crescente procura por cadeias de abastecimento mais resilientes, eficientes e sustentáveis está a impulsionar a digitalização e a adoção de tecnologias como a Internet das Coisas (IoT), a inteligência artificial (IA), automação e a blockchain, permitindo otimizar processos, reduzir custos e minimizar o impacto ambiental das operações [26, 27].
Desafios e oportunidades de Portugal
Na perspetiva portuguesa, o país enfrenta desafios específicos, mas também dispõe de oportunidades únicas para se destacar neste novo cenário. Apesar do contexto global desafiante, Portugal tem demonstrado resiliência económica, com previsões de crescimento do PIB na ordem dos 2% para 2025 e um excedente externo recorde de 3,3% do PIB em 2024, o que demonstra uma notável capacidade de adaptação e competitividade [28, 29].
A sua posição geográfica estratégica oferece vantagens consideráveis para se tornar um hub logístico de relevo, especialmente no contexto de potenciais reconfigurações das cadeias de abastecimento globais.
Portugal tem-se notabilizado pela criação e atração de talento qualificado, o que poderá impulsionar setores inovadores da nova economia No entanto, além da modernização das infraestruturas portuárias e ferroviárias e da adaptação às novas tecnologias no setor logístico, o país enfrenta desafios críticos que exigem uma ação urgente: investir de forma massiva na formação, no upskilling e no reskilling do capital humano, assim como reduzir a burocracia e agilizar os processos de licenciamento para atrair investimentos e IDE..
A transição digital e energética do setor de transportes e logística exige profissionais com novas competências e conhecimentos, capazes de lidar com tecnologias emergentes e implementar práticas que promovam eficiência e sustentabilidade [30]. Assim, é crucial que Portugal invista em programas de formação em diversos níveis e em iniciativas de requalificação, permitindo que os trabalhadores do setor se adaptem às novas exigências.
Além disso, é essencial simplificar os procedimentos administrativos para potenciar o investimento e a criação de emprego.
Conclusão
Perante este cenário, a grande questão que se coloca é se a UE conseguirá superar esta fase de incerteza e transformar a crise numa oportunidade. A resposta julgo passar-se por um aprofundamento da integração europeia, uma maior autonomia estratégica e um investimento reforçado na sua capacidade militar e industrial. A nova administração Trump não é um “Cisne Negro”; é um teste à resiliência e maturidade política da União Europeia.
A resposta da UE será determinante para a sua continuidade como um ator global relevante ou para o risco de se tornar dependente das decisões de terceiros. O reforço da autonomia e da coesão do bloco, aliado a investimentos estratégicos em investigação e inovação na nova economia, pode converter os desafios atuais em oportunidades de crescimento e progresso, consolidando o papel da UE no cenário internacional nos próximos anos.
Referencias:
1 https://www.rtp.pt/noticias/mundo/tomada-de-posse-de-trump-o-que-esperar-dos-proximos-quatro-anos-a-analise-de-quatro-especialistas_es1628407
2 https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/16/a-ue-deve-fazer-frente-a-beligerancia-da-nova-administracao-trump-analistas
3 https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Black_Swan_(livro)
4 https://bdigital.ufp.pt/handle/10284/2397
4 https://datos.bancomundial.org/pais/estados-unidos
5 https://datos.bancomundial.org/region/mundo
6 https://www.jornaldenegocios.pt/weekend/detalhe/donald-trump-o-cisne-negro
7 https://datos.bancomundial.org/indicador/NY.GDP.MKTP.CD?locations=EU
8 https://datos.bancomundial.org/indicador/NY.GDP.MKTP.CD?locations=RU
9 https://data.worldbank.org/indicator/SP.POP.TOTL?locations=EU
10 https://www.consilium.europa.eu/pt/policies/defence-numbers/
11 https://www.defense.gov/News/Releases/Release/Article/3703410/department-of-defense-releases-the-presidents-fiscal-year-2025-defense-budget/
12 https://areferencia.com/asia-e-pacifico/seis-conclusoes-do-relatorio-do-pentagono-sobre-as-forcas-armadas-da-china/
13 https://www.noticiasaominuto.com/mundo/2681041/putin-promulga-orcamento-que-aumenta-24-4-gastos-em-defesa-em-2025
14 https://www.rfi.fr/pt/programas/convidado/20250219-donald-trump-n%C3%A3o-reconhece-ue-como-pot%C3%AAncia-favorecendo-regimes-autocr%C3%A1ticos
15 https://www.consilium.europa.eu/pt/press/press-releases/2022/03/21/a-strategic-compass-for-a-stronger-eu-security-and-defence-in-the-next-decade/
16 https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/o-relatorio-draghi-e-a-industria-de-defesa/
17 https://commission.europa.eu/news/first-ever-european-defence-industrial-strategy-enhance-europes-readiness-and-security-2024-03-05_pt
18 https://sol.sapo.pt/2024/03/05/bruxelas-planeia-criar-uma-economia-de-guerra-na-ue/
19-https://sicnoticias.pt/mundo/2025-01-28-video-kaja-kallas-tera-nocao-da-falta-do-peso-geopolitico-e-da-desuniao-da-uniao-europeia-5d2a689c
20 https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=World_trade_in_goods_and_services_-_an_overview
21-https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2024/12/governo-federal-divulga-integra-do-acordo-de-parceria-entre-mercosul-e-uniao-europeia
22-https://trade.ec.europa.eu/access-to-markets/pt/news/ue-e-india-lancam-uma-agenda-comercial-ambiciosa
23 https://unric.org/pt/multilateralismo-o-que-e-e-por-que-e-importante/
24 https://www.eea.europa.eu/pt/articles/tornar-os-transportes-mais-sustentaveis
25 https://group.dhl.com/en/media-relations/press-releases/2020/dhl-logistics-trend-radar-unveils-trends-that-will-shape-logistics-in-the-future.html
26 https://www.logos3pl.com/pt/blog/10-emerging-technologies-in-the-logistics-sector-in-2025/
27 https://www.jornaldenegocios.pt/economia/conjuntura/detalhe/portugal-fecha-2024-com-o-excedente-externo-recorde-33-do-pib
28 https://clsbe.lisboa.ucp.pt/pt-pt/noticias/2025-ano-de-ouro-para-economia-portuguesa/amp
29 https://nexuslab.pt/
Artigo opinião:LUÍS SILVA LOPES
Fonte:https://www.transportesenegocios.pt/trump-vs-ue-um-cisne-negro-ou-um-desafio-anunciado/
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