🇪🇺 ERA UMA VEZ O ESPAÇO SCHENGEN
As fronteiras voltaram a erguer-se em Schengen, aldeia onde a Europa as derrubou
Na aldeia em que a Europa aboliu os controlos nas fronteiras há quase 40 anos, o sentimento é de indignação perante o aperto da Alemanha.
Reportagem no vale dos três países.
Katya vive na Alemanha e trabalha no Luxemburgo. Todos os dias atravessa a fronteira num curto percurso de cinco minutos de carro entre Perl e Schengen. É proprietária de um café na rua Waistrooss e precisa de estar lá antes das 9 horas para preparar a abertura.
Num dia normal, o caminho seria tranquilo. Mas o cenário muda por completo quando encontra um controlo policial pela frente. “Numa manhã, não consegui abrir o café a horas porque me mandaram parar”, recorda. “Se houver muitos carros, é preciso esperar 30 ou 40 minutos”.
Estas operações das autoridades alemãs já aconteciam antes de forma esporádica, mas Katya receia que se tornem mais frequentes depois de o Governo de Olaf Scholz ter anunciado o alargamento dos controlos a todas as fronteiras terrestres para travar a imigração ilegal. “No outro dia, pararam um autocarro de viagens internacionais que vinha de Munique em direção a Roma e pediram às pessoas para sair e mostrar os documentos. Uma mulher perdeu o voo, veio aqui a chorar. É bom haver controlo, mas também é preciso entender as pessoas”, argumenta a mulher de 57 anos.
O café de Katya fica perto de uma das pontes sobre o rio Mosela que ligam o Luxemburgo e a Alemanha. Para já, a proprietária não notou um aumento dos controlos no lado alemão desde que a medida entrou em vigor na segunda-feira. Porém, sabe muito bem o que significa ser imigrante, pois deixou a Bulgária para se mudar para a Alemanha há 10 anos. “Também sou controlada, como outras pessoas que vieram da Turquia ou dos países árabes. Mas eu vivo aqui e pago os meus impostos”, afirma.
A grande parte dos controlos acontece na ponte que liga as autoestradas A13 e A8, onde se vê a polícia do lado alemão “a cada dois ou três dias”, nota Katya. “Isso é um problema para as pessoas que vivem e trabalham aqui. Em Schengen temos três países: Luxemburgo, França e Alemanha. Talvez a solução seja que todos os residentes tenham um cartão para mostrar diretamente à polícia”. Foi também ali, naquela pequena aldeia, que foi assinado em 1985 o Acordo de Schengen, para suprimir os controlos nas fronteiras internas e instaurar um regime de livre circulação na Europa.
Agora, quase 40 anos depois, as fronteiras voltam a erguer-se. Céline vive em Berviller-en-Moselle, França, e também passa pela Alemanha todos os dias para chegar a Schengen. Trabalha num quiosque a poucos metros do café de Katya. Até ao momento, não foi controlada na estrada, nem se apercebeu se há mais polícia na fronteira alemã. Diz compreender a medida, mas não concorda que por uns paguem todos. “Há pessoas pobres que tentam vir para um país que pensam que será melhor para elas. Acho que não se deve fazer diferença entre raças, todos somos iguais”.
Embora reconheça que nem sempre é fácil para os países gerir a entrada de imigrantes, a francesa de 49 anos defende que não é o controlo das fronteiras que vai resolver a situação. “Por um lado, é necessário, mas o que vão fazer com essas pessoas que vieram até aqui? Não podemos simplesmente mandá-las embora assim. É complicado. Eu não tenho a solução, e acho que ninguém a tem”.
De acordo com a polícia federal alemã, entre janeiro e julho deste ano, 34 mil pessoas tentaram entrar na Alemanha. Cerca de 17 mil foram impedidas de entrar diretamente na fronteira. A outra metade foi autorizada a entrar. Em comparação, no ano passado, a polícia deteve 127 mil pessoas na fronteira que pretendiam entrar na Alemanha sem autorização. Um quarto foi impedido de entrar diretamente na fronteira. Não se sabe ao certo qual é o número de tentativas de entrada no país não declaradas e quantas mais pessoas poderiam ter sido detidas com mais controlos nas fronteiras.
Para Julian, jovem alemão de 28 anos, a ação do seu país “não representa bem a região, que beneficia muito de não haver fronteiras reais”. O estudante vive em Trier, mas costuma ir até Schengen andar de bicicleta junto ao rio Mosela com um amigo. “Vou ao Luxemburgo com frequência e nunca experimentei qualquer tipo de controlo. Não costumo ver muita polícia nas fronteiras, embora esteja a ficar mais frequente”, admite.
Na opinião de Julian, este aumento de controlos “não é o caminho certo”, apontando Schengen como um exemplo perfeito, com três países lado a lado, sem fronteiras. “Luxemburgo, França e Alemanha têm uma importância histórica muito grande na abertura das fronteiras na Europa, e é assustador pensar que, no futuro, as fronteiras possam estar mais fechadas e com mais controlos nos próximos anos”, lamenta.
Tal como Julian, Michelle vive em Trier, mas costuma passar a fronteira para ir abastecer o carro no Luxemburgo, onde o combustível é mais barato. Neste dia, parou numa bomba de gasolina em Schengen. Até agora, não apanhou nenhum controlo da polícia, nem notou qualquer diferença. “Entendo por que estão a fazer isso, mas não tenho a certeza de como vai ser no futuro, porque acho que vai ser muito complicado controlar todas as fronteiras”, disse a jovem de 26 anos.
A alemã considera que a medida se poderá tornar um problema se afetar as pessoas que atravessam os dois países diariamente. “Se vais ao Luxemburgo todas as manhãs, tens de calcular que talvez tenhas de esperar meia hora porque estão a controlar muitos carros. E quando voltas para casa também. Para quem precisa de ir trabalhar, pode ser um pouco irritante”.
Quando era mais nova, a mãe de Michelle contou-lhe sobre os controlos que havia antigamente, mas a jovem nunca passou pela experiência de ser parada. “Não conheço outra realidade, vivemos numa altura em que não precisamos de ser controlados. Portanto, para mim, seria um pouco estranho ser controlada. Honestamente, não saberia como agir”. A alemã já encheu o depósito e vai agora regressar à Alemanha, mas fica apreensiva quanto ao futuro: “Se soubesse que teria de esperar meia hora na fronteira, talvez já não viria aqui”.
Autor:Tiago Rodrigues
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