🇩🇪 AS AUTOESTRADAS ENFRENTAM CADA VEZ MAIS CRÍTICAS

 

Antiga obsessão dos alemães pelas autoestradas de alta velocidade pode estar com os dias contados.

 Na contramão das metas climáticas, os seus custos ambientais e humanos ocultos chegam aos bilhões de euros.

Ao lançar a icónica canção Autobahn, em 1975, a banda eletronica alemã Kraftwerk celebrava a liberdade de movimento nas autoestradas onde se podia conduzir sem limites de velocidade.

 Hoje, contudo, com a crise climática a exigir a redução das emissões carbónicas dos transportes, essas super-rodovias são fonte de controvérsias crescentes.


Embora as origens da autoestradas sejam erroneamente atribuídas a Adolf Hitler, o ditador nacional-socialista completou as primeiras autoestradas com trabalho forçado, mas elas foram uma invenção da República de Weimar, hoje o seu mito é associado ao fracasso da Alemanha em cumprir os seus compromissos climáticos.

O transporte gera mais de 20% das emissões de CO² alemãs, além de ser um dos dois setores que furaram as metas carbónicas anuais em 2021. 

No entanto, projetos de construção de mais 850km de autoestradas, em vez de rodovias elétricas de baixa emissão ou ciclovias de alta velocidade, dominam o plano federal de transportes para 2030.

O PAÍS SOFRE DA MANIA DAS AUTOESTRADAS 

A oposição a essa expansão cresce:

- Segundo os activistas, as rodovias são caras demais e comprometem a capacidade de cumprir as metas previstas na legislação.

 No relatório existem dúzias de desastres:

- Doze autoestradas de que ninguém precisa, publicado em 2021 pela Federação Alemã de Conservação do Meio Ambiente e da Natureza (Bund), denunciou a mania de construção inrefreada de autoestradas que tem o país.

- O estudo mostra que 80% da planeada autoestrada A20, ao longo do litoral noroeste, atravessará pântanos e mangues que capturam 450 milhões de toneladas de dióxido de carbono.

- Espécies animais raras e a flora local também serão destruídas, e o projeto custará pelo menos 6 bilhões de euros, o triplo do calculado em 2016.

Enquanto isso, o pouco que resta na Alemanha de florestas nativas também está a ser desmatado para acrescentar ainda mais quilometragem àquela que já é a mais densa rede rodoviária da Europa.

Em março, o anúncio da expansão adicional da A100, que atravessa Berlim, levou centenas às ruas para protestar que a via aumentará a poluição e destruirá uma parte essencial do ambiente urbano e da vida cultural da capital.

O estado de Berlim opõe-se à extensão, mas o governo federal, em cuja competência se encontram as autoestradas e estradas nacionais, pretende levar os planos adiante.

 Enquanto isso, "o resto da Europa está a tirar os carros das cidades, porque é melhor para o clima, a saúde pública, a qualidade de vida", ressalta Benjamin Stephan, especialista da ONG Greenpeace Alemanha em transportes e mudança climática.

QUANTO MAIS AUTOESTRADAS, MAIS CARROS 

Mas o governo federal continua a impulsionar a extensão das autoestradas, custe o que custar. 

Nem mesmo a imposição de limites de velocidade, que reduziriam as emissões, consegue suficiente apoio no nível federal, portanto em 70% dessas vias os motoristas ainda podem enfiar o pé no acelerador sem restrições. 

Segundo uma análise da Greenpeace, um limite de 100 km/h seria também a maneira mais rápida de reduzir o consumo de combustível fóssil no contexto da guerra russa na Ucrânia.

Extensões rodoviárias e construção de pistas extras são uma medida comummente adotada para resolver as reduções de faixa nas autoestradas onde o congestionamento é crónico. 

Entretanto o efeito de longo prazo dessas expansões é criar mais tráfego, afirma Udo Becker, ecologista de transportes da Universidade Técnica de Dresden.

O problema é, em parte, cultural e histórico, relacionado a um "paradigma tradicional" de crescimento ilimitado, nascido num país destruído do pós-guerra, explica.

 "Mais é melhor é uma noção encravada na nossa perspectiva: mais estradas e mais tráfego é melhor."

Esse paradigma também serviu à indústria automobilística alemã, responsável por quase 10% do PIB nacional em 2020 e com laços notórios com chefes de governos passados, inclusive Angela Merkel, certa vez apelidada "Autokanzlerin", "chanceler federal dos carros".

CICLISTAS NAS AUTOESTRADAS

Ciclistas ocupam a A100 em Berlim em 2021, em sinal de protesto

"Contabilizados os custos reais, autoestradas não seriam construídas"

Nem os custos reais da expansão rodoviária continuada são argumento suficiente para superar essa mentalidade, aponta Becker. "O que sairá dessas extensões da A100 são, claro, emissão de gases-estufa, mais custos, mais barulho e mais poluição."

 Contudo, tais fatores são raramente contabilizados no planeamento rodoviário.

A Comissão Europeia calculou que esses custos "externos" dos transportes, incluindo acidentes, poluição atmosférica, mudanças climáticas, barulho, congestionamento e danos ambientais, somaram quase 1 TRILHÃO de euros em toda a União Europeia em 2019. 

Só os transportes rodoviários geraram 83% desse total.

Se esses custos ocultos fossem contabilizados nos orçamentos para a construção de autoestradas federais, "elas nunca seriam construídas", afirma Benjamin Stephan, da Greenpeace.

Em 2020, na qualidade de líder do Partido Verde, Annalena Baerbock pediu uma moratória sobre a construção das autoestradas. 

Na época, o seu partidio estava em ascensão e ela própria era cogitada como potencial chanceler federal.

No entanto, desde que assumiram o poder em dezembro, em coalizão com os partidos Social-Democrata (SPD) e Liberal Democrático (FDP), os verdes não se comprometeram a uma moratória nem a um limite de velocidade para economizar combustível e reduzir as emissões de CO².

Os esforços para apresentar uma frente unida dentro da nova colizão social-democrata-liberal-verde deram ao ministro dos Transportes Volker Wissing, do partido pró-empresariado FDP, carta branca para apoiar projetos de autoestradas como a A1 em Berlim, afirma Dorothee Saar, especialista em transportes da ação ambientalista Deutsche Umwelthilfe, sediada em Berlim.

Ela observa que o transporte só é mencionado vagamente na nova legislação climática alemã, que estabelece a ambiciosa meta de, até 2030, reduzir as emissões em quase 50% em relação aos níveis de 2019. 

No entanto, não é citada uma data para eliminar os motores de combustão interna, ainda que se mencione o acordo da UE para só registrar veículos carbonicamente neutros a partir de 2035.

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Fonte:https://www.dw.com/pt-br/autobahns-enfrentam-cada-vez-mais-cr%C3%ADticas-na-alemanha/a-62334888



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