🚛 Europa: Faltam motoristas ou há camiões a mais? (Artigo opinião)


O setor do transporte rodoviário de mercadorias na Europa atravessa um dos momentos mais desafiantes das últimas décadas. A pergunta repete-se em conferências, associações e cafés de parque: faltam motoristas ou temos camiões a mais?

A resposta não é simples — mas é clara.

O problema não são os camiões

A Europa não tem, de forma estrutural, camiões a mais. O que existe é subutilização da frota. Há milhares de veículos parados nos parques das empresas simplesmente porque não há quem os conduza.

Segundo a International Road Transport Union (IRU), a escassez de motoristas tem vindo a agravar-se nos últimos anos, com centenas de milhares de vagas por preencher em vários países europeus. Alemanha, França, Polónia, Espanha e também Portugal sentem o impacto.

Não estamos perante excesso de capacidade — estamos perante falta de mão de obra qualificada.


Uma profissão que envelhece

A idade média do motorista europeu é elevada. Em muitos países, uma grande percentagem dos profissionais tem mais de 50 anos. A renovação geracional é insuficiente.

E porquê?

  • Longos períodos fora de casa
  • Pressão constante de prazos
  • Custos elevados de formação (Carta C+E, CAM, CQM)
  • Responsabilidade crescente com margens reduzidas

Enquanto isso, outros setores oferecem horários mais previsíveis e condições consideradas mais atrativas para os jovens.


A regulamentação: necessária, mas exigente

A União Europeia tem reforçado as regras para melhorar segurança, concorrência e condições sociais. O chamado Pacote da Mobilidade, promovido pela Comissão Europeia, trouxe alterações profundas:

  • Regras mais apertadas de cabotagem
  • Obrigação de regresso do veículo ao país de origem
  • Regras reforçadas sobre tempos de condução e descanso

São medidas com intenção legítima: proteger trabalhadores e equilibrar mercado.

Mas na prática, aumentam a necessidade de planeamento, criam mais tempos mortos operacionais e exigem maior número de motoristas para cumprir os mesmos serviços.


A procura continua a crescer

A realidade económica europeia exige cada vez mais transporte:

  • Crescimento do comércio eletrónico
  • Cadeias logísticas fragmentadas
  • Produção distribuída entre vários países
  • Entregas “just-in-time”

O transporte rodoviário continua a ser a espinha dorsal da economia europeia. E não existe alternativa viável, a curto prazo, que substitua totalmente o camião na última milha e na distribuição regional.

Ou seja: a procura aumenta — mas a oferta de motoristas não acompanha.


Então, qual é o verdadeiro problema?

Não há camiões a mais.

Há:

  • Empresas que investiram em frota e não conseguem operá-la a 100%.
  • Serviços recusados por falta de condutores.
  • Aumento de custos logísticos que acabam refletidos nos preços finais.

O problema é estrutural e social — não é mecânico.


Portugal dentro do cenário europeu

Portugal não está isolado desta realidade. A diferença é que, historicamente, o país exportou motoristas para mercados como França, Alemanha ou Benelux, onde as condições eram mais atrativas.

Hoje, a concorrência interna e externa é maior. Empresas portuguesas disputam motoristas com operadores estrangeiros que conseguem oferecer salários superiores.

E isso gera um ciclo difícil:

  • Custos sobem
  • Margens apertam
  • Pequenas empresas sentem maior pressão

E as soluções?

Algumas possíveis linhas de ação:

✔️ Melhorar condições salariais e sociais
✔️ Investir em formação financiada
✔️ Tornar a profissão mais compatível com vida familiar
✔️ Modernizar parques e condições de descanso
✔️ Valorizar socialmente o motorista como profissional essencial

A digitalização ajuda, mas não substitui o fator humano.


Conclusão: o setor precisa de valorização, não de mais camiões

A narrativa de que “há camiões a mais” simplifica um problema complexo. O que existe é um setor que depende de pessoas — e que durante demasiado tempo não investiu suficientemente na atratividade da profissão.

A Europa precisa de motoristas. Precisa de dignificar a profissão. Precisa de políticas equilibradas que garantam segurança, mas também viabilidade económica.

Porque no fim de contas, tudo o que consumimos passou por um camião.

E sem motorista, o camião não anda.


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